Gosto de ouvir as sumidades do nosso país a dar opiniões. Saber o que pensam as elites intelectuais, políticas, enfim aqueles bem distantes do resto das pessoas, os habitantes do Olimpo.
Ver e ouvir, por exemplo, a Quadratura do Círculo. Pacheco Pereira, com o seu ar de professor enfadado, já explicou tantas vezes e parece que ninguém aprende. Pois que não está ali a levantar questões ou dar a sua opinião. Está a dizer o que é e esta gente burra nunca mais aprende. Jorge Coelho está deprimido. Cansado de se repetir, triste e sem entusiasmo, já não é o campeão de outrora, mas alguém a cumprir um frete. O outro senhor, de que sempre me esqueço o nome, acto falho de certeza, empresário de sucesso, todo ele é sucesso. Sorriso, está bem de vida, dá opiniões reservadas, convicto da sua defesa da classe que representa. Senhores, doutores, os iluminados.
Falam então de pensões de reforma, ordenados, descontos, pedir sacrifícios à população. Mais uns. Aquela população que é suposta ter computadores em casa, se tiver casa.
Eu gostava de ouvir estes senhores, sim, depois de uma experiência como aquelas que nos aparecem nos filmes.
Gostava de ver o sr. Pacheco Pereira a viver durante seis meses com o ordenado mínimo, talvez num bairro social. Pode ser que conseguisse comprar um jornal de vez em quando, com um pouco de ginástica financeira. A ir para a bicha do Centro de Saúde para pedir um atestado médico quando estivesse com as suas alergias. De preferência com febre.
Queria ver o senhor empresário a viver num velho bairro de Lisboa, com a casa a cair de podre, vivendo uma vida de mulher reformada. Pensão de cerca de 280 Euros, praticamente metade da dos homens. Proibido de levar a sua chiquíssima roupa. Viver com o que tem e recorrer ao serviço nacional de saúde.
Ao Senhor Jorge Coelho, já tão neura, dava-lhe uma pensão média de funcionário público, já com os devidos descontos, casa, roupa, livros a condizer. A viver, talvez, na Reboleira, e a recorrer ao “privilégio” da ADSE. Com os médicos que sobraram das seguradoras de saúde.
Ao fim de seis meses convidava-os para um debate. A sério. Queria ver como falavam dos grandes problemas da actualidade, segurança social, saúde, demografia, emprego. Como apreciavam o “downsizing” como política universal para a poupança. Como aconselhavam os casais a ter mais filhos e o sentiam como patriotismo. É fácil falar de números, é difícil falar das pessoas reais. Seria uma experiência inovadora. Seriam casas sem biblioteca, sem PC, talvez até sem casa de banho.
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