Cheguei de férias muito bem disposta. Havia ido a S. Pedro do Sul ao encontro da nossa genuína natureza e depois passei pelo Porto para ver Dali. Valeu a pena.
Não obstante, já sentia saudades de casa e, por isso, logo que cheguei, fui ver o Tejo. Alegremente, apanhei o metro para o Cais do Sodré. Eis senão quando se senta ao meu lado um ente do género masculino, que acomodando-se a gosto, ocupava a sua cadeira e parte da minha, desistindo de tal invasão apenas após eu lhe ter disparado olhares verdadeiramente hostís e bélicos!... Algumas paragens depois, entrou uma jovem chinesa, que se sentou diante de mim. Ao seu lado encontrava-se o amigo do meu “vizinho”, o qual, tal como o seu amigo, aparentava sofrer de qualquer mal no baixo ventre, mantinha as pernas abertas, ocupando, assim, o seu assento e parte do da jovem mulher chinesa, a qual muito encolhidinha e curvada, se havia posicionado no outro extremo do seu respectivo lugar, sacrificando-se…
De tais bestas, não sei a proveniência, credo, capacidade económica… nem creio que tal seja relevante. Deambula por aí muito portuga, que sofre da mesma maleita na tomateira, impedindo a consumação da civilidade. É um mal do qual se não vislumbra o fim e para o qual não há técnica óptima que se invente!...
O fatídico episódio ainda me dói, mais de uma semana volvida. Não fora uma réstia do encantamento que trago da visita a Dali e a memória de sábias palavras ouvidas por outras mulheres sobre casos paralelos, faltar-me-iam, com certeza, as forças para reiniciar o ano judicial.
.
Entretanto, ao Cais do Sodré, a magia do Tejo permanece.
Um grande abraço
Ana Damião
terça-feira, 4 de setembro de 2007
Inacreditável
!
Hoje, 2007, século XXI, ainda se pensa que ser-se apelidada de "feminista" é um insulto. Não é. Todas as mulheres e homens que lutam pelos direitos humanos das mulheres e pelo gozo das suas liberdades e direitos fundamentais são feministas, quer queiram ou não. É isso que é ser feminista.
Segundo inacreditável: confundir igualdade de género, neste sentido, com igualitarismo primário, fabricação de pessoas em série. A igualdade neste sentido político compreende a diferença, mas não a considera inferior, antes a valoriza.
Terceiro incrível: feminismo não é nem nunca foi o contrário de machismo. Machismo é o controlo sobre as mulheres, feminismo é, como disse Simone de Beauvoir "Não queremos controlar a vida dos homens, mas tão só a nossa própria vida".
Mais, muitos homens gostam de viver com feministas, mulheres independentes, com pensamento próprio, auto-confiança e suficiência.
E já agora, as mulheres não querem tratamento especial, pois respeito e dignidade é direito de todas as pessoas. Educação também. As mulheres querem liberdade de escolher o seu projecto vida, de aceder a todas as profissões, de ganhar o mesmo salário por trabalho equivalente, de partilhar as tarefas de casa e o cuidado dos filhos, e acima de tudo de ser quem são, individualmente, sem se lhes impor um papel social fixo e semi-idiota. E, se muitas não o querem, é porque nesta sociedade isso não lhes parece possível. O que é excessivamente triste num mundo que se quer justo, democrático, humano.
Esta igualdade na diferença é possível, desejável e segue os princípios e valores de todas as sociedades Ocidentais.
Hoje, 2007, século XXI, ainda se pensa que ser-se apelidada de "feminista" é um insulto. Não é. Todas as mulheres e homens que lutam pelos direitos humanos das mulheres e pelo gozo das suas liberdades e direitos fundamentais são feministas, quer queiram ou não. É isso que é ser feminista.
Segundo inacreditável: confundir igualdade de género, neste sentido, com igualitarismo primário, fabricação de pessoas em série. A igualdade neste sentido político compreende a diferença, mas não a considera inferior, antes a valoriza.
Terceiro incrível: feminismo não é nem nunca foi o contrário de machismo. Machismo é o controlo sobre as mulheres, feminismo é, como disse Simone de Beauvoir "Não queremos controlar a vida dos homens, mas tão só a nossa própria vida".
Mais, muitos homens gostam de viver com feministas, mulheres independentes, com pensamento próprio, auto-confiança e suficiência.
E já agora, as mulheres não querem tratamento especial, pois respeito e dignidade é direito de todas as pessoas. Educação também. As mulheres querem liberdade de escolher o seu projecto vida, de aceder a todas as profissões, de ganhar o mesmo salário por trabalho equivalente, de partilhar as tarefas de casa e o cuidado dos filhos, e acima de tudo de ser quem são, individualmente, sem se lhes impor um papel social fixo e semi-idiota. E, se muitas não o querem, é porque nesta sociedade isso não lhes parece possível. O que é excessivamente triste num mundo que se quer justo, democrático, humano.
Esta igualdade na diferença é possível, desejável e segue os princípios e valores de todas as sociedades Ocidentais.
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Banho de Realidade
Gosto de ouvir as sumidades do nosso país a dar opiniões. Saber o que pensam as elites intelectuais, políticas, enfim aqueles bem distantes do resto das pessoas, os habitantes do Olimpo.
Ver e ouvir, por exemplo, a Quadratura do Círculo. Pacheco Pereira, com o seu ar de professor enfadado, já explicou tantas vezes e parece que ninguém aprende. Pois que não está ali a levantar questões ou dar a sua opinião. Está a dizer o que é e esta gente burra nunca mais aprende. Jorge Coelho está deprimido. Cansado de se repetir, triste e sem entusiasmo, já não é o campeão de outrora, mas alguém a cumprir um frete. O outro senhor, de que sempre me esqueço o nome, acto falho de certeza, empresário de sucesso, todo ele é sucesso. Sorriso, está bem de vida, dá opiniões reservadas, convicto da sua defesa da classe que representa. Senhores, doutores, os iluminados.
Falam então de pensões de reforma, ordenados, descontos, pedir sacrifícios à população. Mais uns. Aquela população que é suposta ter computadores em casa, se tiver casa.
Eu gostava de ouvir estes senhores, sim, depois de uma experiência como aquelas que nos aparecem nos filmes.
Gostava de ver o sr. Pacheco Pereira a viver durante seis meses com o ordenado mínimo, talvez num bairro social. Pode ser que conseguisse comprar um jornal de vez em quando, com um pouco de ginástica financeira. A ir para a bicha do Centro de Saúde para pedir um atestado médico quando estivesse com as suas alergias. De preferência com febre.
Queria ver o senhor empresário a viver num velho bairro de Lisboa, com a casa a cair de podre, vivendo uma vida de mulher reformada. Pensão de cerca de 280 Euros, praticamente metade da dos homens. Proibido de levar a sua chiquíssima roupa. Viver com o que tem e recorrer ao serviço nacional de saúde.
Ao Senhor Jorge Coelho, já tão neura, dava-lhe uma pensão média de funcionário público, já com os devidos descontos, casa, roupa, livros a condizer. A viver, talvez, na Reboleira, e a recorrer ao “privilégio” da ADSE. Com os médicos que sobraram das seguradoras de saúde.
Ao fim de seis meses convidava-os para um debate. A sério. Queria ver como falavam dos grandes problemas da actualidade, segurança social, saúde, demografia, emprego. Como apreciavam o “downsizing” como política universal para a poupança. Como aconselhavam os casais a ter mais filhos e o sentiam como patriotismo. É fácil falar de números, é difícil falar das pessoas reais. Seria uma experiência inovadora. Seriam casas sem biblioteca, sem PC, talvez até sem casa de banho.
Ver e ouvir, por exemplo, a Quadratura do Círculo. Pacheco Pereira, com o seu ar de professor enfadado, já explicou tantas vezes e parece que ninguém aprende. Pois que não está ali a levantar questões ou dar a sua opinião. Está a dizer o que é e esta gente burra nunca mais aprende. Jorge Coelho está deprimido. Cansado de se repetir, triste e sem entusiasmo, já não é o campeão de outrora, mas alguém a cumprir um frete. O outro senhor, de que sempre me esqueço o nome, acto falho de certeza, empresário de sucesso, todo ele é sucesso. Sorriso, está bem de vida, dá opiniões reservadas, convicto da sua defesa da classe que representa. Senhores, doutores, os iluminados.
Falam então de pensões de reforma, ordenados, descontos, pedir sacrifícios à população. Mais uns. Aquela população que é suposta ter computadores em casa, se tiver casa.
Eu gostava de ouvir estes senhores, sim, depois de uma experiência como aquelas que nos aparecem nos filmes.
Gostava de ver o sr. Pacheco Pereira a viver durante seis meses com o ordenado mínimo, talvez num bairro social. Pode ser que conseguisse comprar um jornal de vez em quando, com um pouco de ginástica financeira. A ir para a bicha do Centro de Saúde para pedir um atestado médico quando estivesse com as suas alergias. De preferência com febre.
Queria ver o senhor empresário a viver num velho bairro de Lisboa, com a casa a cair de podre, vivendo uma vida de mulher reformada. Pensão de cerca de 280 Euros, praticamente metade da dos homens. Proibido de levar a sua chiquíssima roupa. Viver com o que tem e recorrer ao serviço nacional de saúde.
Ao Senhor Jorge Coelho, já tão neura, dava-lhe uma pensão média de funcionário público, já com os devidos descontos, casa, roupa, livros a condizer. A viver, talvez, na Reboleira, e a recorrer ao “privilégio” da ADSE. Com os médicos que sobraram das seguradoras de saúde.
Ao fim de seis meses convidava-os para um debate. A sério. Queria ver como falavam dos grandes problemas da actualidade, segurança social, saúde, demografia, emprego. Como apreciavam o “downsizing” como política universal para a poupança. Como aconselhavam os casais a ter mais filhos e o sentiam como patriotismo. É fácil falar de números, é difícil falar das pessoas reais. Seria uma experiência inovadora. Seriam casas sem biblioteca, sem PC, talvez até sem casa de banho.
terça-feira, 21 de agosto de 2007
(Re)começando com o absurdo
Agora sim, posso escrever, passada que é a minha aventura choque, que manterei em segredo. Só comentanto umas idiotices - capa de uma revista, com uma retocadissima foto de Tom Cruise. «O mundo não sabe o que pensar de Tom Cruise». Claro que passamos noites sem dormir com este problema mundial. Por isso se justifica que se guarde o espaço de uma capa de revista para esta foto, importantissima para o nosso futuro imediato e que preocupa toda a gente.
Depois, quando se pretende falar de alguma coisa diferente, não há espaço.
Ninguém comenta que se diga que "num restaurante o ambiente é táo poluído quanto a Av. da Liberdade, a rua mais poluida de Lisboa". Preocupados, os fundamentalistas antitabágicos estão apoiando a lei proibindo o fumo em restaurantes. Só me pergunto se a avenida não seria o problema urgente a tratar. Sou implicitamente estupida.
Isto de nos preocuparmos com a poluição em que vivemos, não a que escolhemos, mas a que nos é imposta pela péssima gestão camarária, pela cobardia de enfrentar os reais problemas do quotidiano, não é concerteza bem visto. Que importa que a Avenida da Liberdade envenene as pessoas! Importante é o restaurante da esquina.
Não percebi que tratar da poluição com realismo iria incomodar muita gente. Implicaria despesas om os tais púbicos transportes, incomodaria os automobilizados que teriam de passar a andar de metro e autocarros e que, esses sim, são gente importante. Mais fácil é tão só a repressão e controlo de cidadãos e cidadãs de forma individual. O que neste momento é muito mais bem visto.Controlo, poder sobre os outros, proibições e direitos perdidos. O que não se perdeu foi o salazarismo incrustado nas nossa mentes.
Quero mais tarde comentar com alguma troça, a esmolinha dada a quem tiver filhos. Medida de grande alcance social que irá pôr todas as mulheres a produzir (ou será reproduzir?)para o bem da nação.
Que a nação não são as mulheres, mas uma entidade indefinida, com várias exclusões, rosto masculino e preocupaçóes monetárias. Dinheiro e futebol, sim, são coisas sérias, mas gente? Só abstraindo e agarrando o mito com toda a força para que não fuja.
Depois, quando se pretende falar de alguma coisa diferente, não há espaço.
Ninguém comenta que se diga que "num restaurante o ambiente é táo poluído quanto a Av. da Liberdade, a rua mais poluida de Lisboa". Preocupados, os fundamentalistas antitabágicos estão apoiando a lei proibindo o fumo em restaurantes. Só me pergunto se a avenida não seria o problema urgente a tratar. Sou implicitamente estupida.
Isto de nos preocuparmos com a poluição em que vivemos, não a que escolhemos, mas a que nos é imposta pela péssima gestão camarária, pela cobardia de enfrentar os reais problemas do quotidiano, não é concerteza bem visto. Que importa que a Avenida da Liberdade envenene as pessoas! Importante é o restaurante da esquina.
Não percebi que tratar da poluição com realismo iria incomodar muita gente. Implicaria despesas om os tais púbicos transportes, incomodaria os automobilizados que teriam de passar a andar de metro e autocarros e que, esses sim, são gente importante. Mais fácil é tão só a repressão e controlo de cidadãos e cidadãs de forma individual. O que neste momento é muito mais bem visto.Controlo, poder sobre os outros, proibições e direitos perdidos. O que não se perdeu foi o salazarismo incrustado nas nossa mentes.
Quero mais tarde comentar com alguma troça, a esmolinha dada a quem tiver filhos. Medida de grande alcance social que irá pôr todas as mulheres a produzir (ou será reproduzir?)para o bem da nação.
Que a nação não são as mulheres, mas uma entidade indefinida, com várias exclusões, rosto masculino e preocupaçóes monetárias. Dinheiro e futebol, sim, são coisas sérias, mas gente? Só abstraindo e agarrando o mito com toda a força para que não fuja.
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